As Festas da Rua Velha. Lembranças da Minha Primeira Infância

access_time 4 de dezembro de 2015 chat_bubble_outline 0 comments Este post foi lido 693 vezes

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vereador ivan 2013
Por Prof. José Ivan de Lima.
Dia sete de dezembro, noite véspera do dia da padroeira da cidade, Nossa Senhora da Conceição. Estávamos prontos para ir à festa na Rua Velha. Vestidos com roupas novas, compradas com dinheiro da safra do algodão, esperávamos por nosso pai, que nos levaria às luzes da festa. Todo ano ele repetia um roteiro bem conhecido. Ao chegar lá, parava na mercearia de Antônio Doutor, especialmente num bar improvisado nos fundos da mesma, escolhia uma mesa para nós, que éramos quatro, Ivan, Valmir, Edilma e Edilza, já que os outros (Edeny, Rinaldo e Renildo), viriam de fornadas posteriores, e pedia três refrigerantes. Dividia meia Crush (refrigerante delicioso) para cada um e ficava com outro para ele.Bebíamos aquela Crush lentamente, deglutindo cada gole como se fosse um néctar dos deuses. Ainda hoje tenho o sabor dela, fincado na minha memória gustativa. Depois do “derrame ,” começava o passeio no meio de uma multidão que alegremente girava pelas calçadas da Rua Velha. Cheguei perto da ONDA, um brinquedo grande, redondo, que jogava as pessoas amontoadas de um lado para outro e ainda subia e descia. 
O barulho dos ocupantes era infernal. Medo, ousadia, emoção e desconforto (alguns vomitavam) eram comuns. Tudo iluminado por um enorme candeeiro alimentado por gás óleo (óleo diesel), poluindo o ar com fumaça e cheiro forte, enquanto um tocador animava tudo com sua sanfona de oito baixos. Ao lado da ONDA ficava o JUJU de Zé de Carocha, um brinquedo constituído por cadeiras de madeira onde sentavam várias crianças, e depois ele movimentava manualmente até que aquele singelo carrossel de madeira pegasse embalagem.
 A criançada adorava, enquanto eu, por ter facilidade em enjoar ficava só olhando. Outras preferiam o carrossel de Chico Padeiro. Do mercado público vinha um som de sanfona, triângulo e zabumba. Fugindo de pai fui olhar pelas janelas de ferro, que ficavam abertas. Vi um forró pela primeira vez. Os matutinhos revezavam suas damas. No ar um cheiro misturado de essências fortes, que iam desde alfazema, óleo palmolive, brilhantina Dorly, óleo glostora e outros. O chão de cimento liso estava chamuscado de farinha, resíduo da feira da tarde. Num canto, Pedro Barata, sanfoneiro afamado arrastava o fole. O ruim da festa era o medo de brigas, pois o salão tinha muitos homens, que disputavam agoniados algumas damas. Com medo de pai, afastei-me do forró e fomos para a “praça da alimentação”, que era na curva da calçada, quase na saída para Arcoverde. Ali, havia pilhas de abacaxis, mangas espada e rosa espalhadas pelo chão em abundância, tudo muito barato para quem quisesse escolher. As frutas eram chupadas ali mesmo, sem nenhuma cerimônia. 
Também se vendiam “maçãs do amor” vermelhas e pegajosas além, de “beira seca”, espécie de tapioca ressecada, para tomar com refrescos de groselha, tudo quente, pois geladeira era coisa rara na época, e as que tinham funcionavam com querosene. A vontade de sentar era grande, mas não tinha onde, no meio de tanta gente. Prá fazer xixi tinha os becos do mercado e da ladeira da Rua do Juá, que hoje chamam da COMPESA. Ainda não havia os banheiros químicos. Raspa-raspa ou gelada eram oferecidos com vários sabores, cujas essências eram guardadas em garrafas coloridas. 
Prá romantizar a noite, uma difusora amarrada num poste de madeira, anunciava canções da época, precedidas por mensagens de amor, algumas misteriosíssimas como: alô alô alguém, ouça essa canção que alguém que muito lhe ama, lhe oferece (ninguém sabia quem mandava nem prá quem era). A música oferecida como prova de um grande amor é “ boneca cobiçada “ ( foi regravada recentemente por um desses cantores sertanejos) e um trecho dizia assim “... Boneca cobiçada, das noites de sereno, teu corpo não tem dono, teus lábios tem veneno, se queres que eu sofra é grande teu engano, pois olhas nos meus olhos e vês que não estou chorando...” Enquanto a música tocava, pai nos levava de volta para casa, cansados mas deslumbrados com tantas coisas. Coisas que não sabíamos ainda, serem componentes dos sonhos das pessoas, pois como hoje, as pessoas também sonhavam em viver a maior utopia da vida que é a de ser feliz e para sempre.
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