Sai do ar para nunca mais voltar, por Prof. José Ivan de Lima

Sai do ar para nunca mais voltar, por Prof. José Ivan de Lima

access_time 10 de junho de 2018 Este post foi lido 213 vezes

Em meados da década de sessenta, o Bazar das Novidades era uma das lojas mais prósperas de Sertânia. Vendia aviamentos para costuras, principalmente, e também sapatos. Ficava de frente para os Correios, onde hoje é a loja GTPresentes. Um Ford 29, apelidado de Fubica de Misael, estacionava na frente. A loja tinha dois ambientes. No primeiro ficava a loja, ocupando o espaço maior, e no segundo, improvisada em um canto, a Rádio Alvorada, primeira rádio de Sertânia. Era clandestina, proibida de funcionar pela polícia, mas existiu por um bom tempo. Significou na época um gesto ousado e empreendedor de Misael Henrique de Vasconcelos, ex-vereador do município. Ele inclusive pedia a João Bezerra (João de Adauto ), locutor e colaborador, que investigasse o alcance regional da rádio. Segundo João, ela conseguia penetrar no vale do pajeú, sendo ouvida em Iguaraci.

Naquela manhã próxima das eleições, entrei lá pela primeira vez, notando logo que o clima na rádio era de bom humor. Percebi isso ainda no corredor. A cena que presenciei era divertida, embora um pouco maldosa. Certo candidato a vereador fazia um discurso empolgado. Usava um estranho microfone redondo e de cor acastanhada. E aí, o cúmulo da presepada, o fio estava enrolado num prego na parede, logo nada estava sendo transmitido para canto nenhum. O candidato se esgoelava, querendo chegar até o povo, enquanto, perto dele, João de Adauto e Jordão (presidente do Sport/Sertânia) estouravam-se de rir. Prometia inclusive, se eleito, botar um galão d’água, de vez em quando, na casa dos seus eleitores. Os discursos de campanha eram proibidos, mas ele era muito teimoso, por isso resolveram “dar-lhe essa oportunidade”.

Depois que ele saiu, comecei a manusear alguns discos, por mera curiosidade. Eram tipo long play de vinil, com suas capas muito bonitas. Quase todos musicados por orquestras internacionais, estando ali por empréstimo de terceiros. .
O programa mais ouvido na Rádio era de extrema originalidade. O locutor cobrava pelo microfone, com todo mundo escutando, quem devia algum dinheiro no Bazar. Era um tipo boêmio, malandro, gaiatissímo, que ostentava uma vasta cabeleira preta com topete, combinando com destacado óculos escuros. Chamava-se Vavá de Sebastiãozinho esse “ showman” da época.

No microfone ele deitava e rolava: “Alô dona fulana! Deixe de andar bonita e venha pagar sua conta.”“Alô dona Maria da rua tal! Apareça para pagar o dinheiro que ficou devendo. Já demorou demais!”… E assim continuava o massacre. Quase todas as pessoas cobradas, irritadas, deixavam de comprar na loja. Até um tipo de SERASA caboclo foi criado. O nome do devedor renitente era escrito num pedaço de papelão e pregado na parede. No dia que o individuo indignado viesse pagar, o nome no SERASA era retirado da parede. Quem quisesse conhecer os velhacos no comércio, era só passar no Bazar de Misael que os nomes estavam lá, pregados.

“Almas esticadas num curtume”, como canta Caetano. Assim foi, até o dia em que o Bazar das Novidades fechou suas portas. Antes disso houve o rebuliço do fechamento da rádio pela polícia. A ordem veio de uma autoridade do exército, sendo comunicada na hora de um duelo de repentistas, entre Gato Velho e Zé Batista (pai de Nico). Avisado da ordem, Gato foi logo dizendo: só saio quando a cantoria terminar! E assim fez.

Não deixaram que se tirasse a maioria dos discos. O medo venceu a batalha e naquele dia a Rádio Alvorada encerrou sua breve história. Coube ao locutor Djalma (que anos depois perderia a voz), fazer o “ grand finale “da despedida emocionada e histórica. Com a voz embargada, ele disse ao microfone: RÁDIO ALVORADA DE SERTÂNIA, SAI DO AR PARA NUNCA MAIS VOLTAR!! E assim aconteceu, saiu do ar, mas entrou na história

* Dedicado a Magda Vasconcelos e demais filhos de Misael, além de Artur AlvesJulia Maria Lima, outros netos e toda a família.

José Ivan de Lima

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