Sobradinho tem melhor volume de água desde o início da seca

Sobradinho tem melhor volume de água desde o início da seca

access_time 28 de novembro de 2018 Este post foi lido 26 vezes

Maior reservatório de água do Nordeste, o Lago de Sobradinho volta a ter seu melhor volume de água, desde o início da seca em 2012, atingindo um nível de 22,7%. As chuvas que caíram em Minas Gerais tiraram a barragem de uma situação de colapso e voltaram a trazer esperança à região do São Francisco. Em novembro do ano passado, Sobradinho quase agonizou, alcançando seu estágio mais crítico em 5 anos, com volume de 1,08%. Um ano depois, o reservatório volta a ganhar vida. Com a melhora nos volumes, a expectativa é que a Agência Nacional de Águas (ANA) autorize o aumento da saída de água do reservatório e beneficie os usuários, a geração de energia hidrelétrica e a produção agrícola. Desde o começo da estiagem, a vazão foi sendo reduzida ano a ano e chegou ao menor patamar da história em 2017, quando ficou em 550 metros cúbicos por segundo (antes da seca era de 1,3 mil m³/s). Como o período chuvoso na região se estende até maio de 2019, a previsão é de que os níveis do reservatório ainda avancem. Um verdadeiro presente para Sobradinho, que completa 40 anos de inauguração no próximo ano.

Entre os usuários, a expectativa é de que a ANA libere a vazão do reservatório para algo entre 800 m³ e 900 m³ por segundo a partir do início de 2019. “Hoje estamos autorizados a utilizar a vazão mínima de 550 m³/s, mas com a melhoria já se pode chegar a 700 m³/s. Se a vazão mínima autorizada chegar a 900 m³/s, a geração de energia poderá ter um incremento de 900 MW”, calcula o diretor de Operação da Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf), João Henrique Franklin. Isso significa um crescimento de 30% em relação à produção atual de 3.000 MW. O engenheiro destaca que, desde o início da estiagem, a participação da geração hidrelétrica caiu de 60% para 30% da matriz energética do Nordeste. A companhia tem capacidade instalada para gerar 10,6 mil MW, mas hoje só produz um terço do potencial.

O aumento da geração de energia de fonte hidrelétrica também pode significar alívio no valor da conta de luz para o consumidor, com mudança na bandeira tarifária. A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) já anunciou que a bandeira tarifária para novembro é amarela, com custo de R$ 1 a cada 100 kWh (quilowatts-hora) consumidos. Isso representa uma redução na cobrança em relação aos cinco meses anteriores, quando foi acionado o patamar 2 da bandeira vermelha, que prevê cobrança de R$ 5 a cada 100 kWh.

A tendência de melhora da bandeira tarifária também ganha força com o aumento do nível de água nos reservatórios não só do Nordeste, mas do restante do País. Nas suas simulações, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) já previa um aumento no acúmulo de água.

“As últimas simulações do ONS indicavam que os reservatórios do Sudeste e Centro-Oeste chegariam ao fim de novembro entre 18% e 20%. Hoje, eles estão em 23,50% e devem terminar o mês nesse patamar. O volume é maior que o do ano passado, de 18,5%. Para o Nordeste, a previsão era chegar ao final de novembro com 21% da capacidade máxima (na última terça-feira esse volume já tinha chegado a 28,67% nos reservatórios das usinas de Sobradinho, Três Marias e Itaparica). Ao contrário dos anos anteriores, em que houve um atraso do período chuvoso, este ano já está caracterizada uma situação de normalidade. Estamos na transição do período seco para o período úmido e as chuvas têm ajudado bastante nesse fim de ano. A previsão para o mês de novembro, de acordo com o Programa Mensal da Operação, é de uma quantidade efetiva de água que chega aos reservatórios de 129% acima da média histórica”, compara o ONS.

CAUTELA

Apesar do aumento da quantidade de água nos reservatórios e da expectativa dos usuários do sistema pelo aumento da vazão, a ANA prefere ser conservadora em relação à liberação de mais água das barragens. “Por medida de precaução quanto à qualidade do próximo período de chuvas, continuará prorrogada a autorização da redução da vazão mínima liberada pelos reservatórios de Sobradinho e Xingó, de 1.300 m³/s para 550 m³/s, até março de 2019”, afirma o superintendente de Operações e Eventos Críticos da ANA, Joaquim Gondim. Ele diz que se não fossem adotadas medidas para fazer a gestão da crise da Bacia do São Francisco durante o período de estiagem, Sobradinho teria atingido seu volume morto desde 2014.

“Mesmo com a redução gradativa das vazões liberadas pelos reservatórios da bacia, Sobradinho atingiu 1,03% do seu volume útil em dezembro de 2015 e de 1,08% do seu volume útil em novembro do ano passado. Esses dados mostram de forma inequívoca que o reservatório de Sobradinho teria atingido seu volume morto várias vezes ao longo do atual período de estiagem que a bacia do São Francisco está passando, que é o mais grave de que se tem registro. Isso significa que o rio teria passado por situações muito mais críticas na sua foz, além da possibilidade de interrupção de irrigação diretamente do lago de Sobradinho pelo recuo das águas”, reforça Gondim, justificando por que a ANA precisa esperar o que vai acontecer com o regime de chuvas antes de liberar a saída de mais água das barragens para consumo e produção.

A meteorologista da Agência Pernambucana de Águas e Clima (Apac), Maria Aparecida Fernandes, explica que o fenômeno de Zona de Convergência do Atlântico Sul atuou na região de Minas Gerais e causou bastante chuva na região. A ausência do fenômeno explica, em parte, o fato de, no mesmo período de 2017, as chuvas não terem ocorrido e Sobradinho ter alcançado volume de água tão baixo.

No Estado cenário ainda alarma

As chuvas que caíram em Pernambuco nos últimos dias ainda não foram suficientes para modificar a situação dos reservatórios no Estado, especialmente no Agreste, região mais castigada pela seca atualmente.

Jucazinho, no município de Surubim, por exemplo, ainda está com nível de acúmulo de água de 4%, correspondente a 13 milhões de metros cúbicos. A capacidade é de 327 milhões de metros cúbicos de água. Este é o maior reservatório para abastecimento humano do Agreste e atende a 15 municípios da região.

As chuvas também não afetaram a barragem do Bitury, que continua em situação de pré-colapso. O reservatório fica em Belo Jardim, também no Agreste.

“As chuvas registradas recentemente não foram suficientes para fazer os rios correrem para as barragens. Se continuar chovendo, aí sim o terreno fica saturado e os rios podem aumentar de volume. É época de chuva no Sertão. No Agreste, a quadra começa em abril. Se vier chuva fora de época, é lucro pra gente, mas é difícil prever”, comenta o diretor Regional do Interior da Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa), Marconi de Azevedo.

No Agreste, apenas a barragem de Riacho da Palha, no município de Lagoa de Ouro, captou água. A cidade de 12 mil habitantes estava há um mês em rodízio e, hoje, o abastecimento voltou a ser 24 horas.

Já no Sertão, o destaque é a barragem de Brotas, em Afogados da Ingazeira, que aumentou o volume em 6%. A capacidade total da barragem é de 19,6 milhões de metros cúbicos. Agora está com 64% da sua capacidade.

A situação no Agreste preocupa o setor produtivo, já que a água é essencial para a produção do Polo de Confecções. Na semana passada, os representantes das Câmaras Setoriais de Moda e Produção Têxtil se reuniram com representantes da Compesa. “Pernambuco é o maior produtor de jeans do País. Tem 18% da produção, mas não tem nenhuma fábrica de denim, por causa da situação hídrica. Para levar indústrias de maior porte para o interior do Estado, precisamos de água e energia”, comenta o presidente da AD Diper, Antônio Xavier, que acompanhou a reunião. Interesse para investir por parte das empresas existe. Ele cita a chegada da Pernambuco Têxtil, que vai investir R$ 75,3 milhões na região e gerar 290 vagas para produzir o denim.

A Compesa garante que em 24 meses, no máximo, será possível regularizar o abastecimento na região. É o prazo previsto para a operação ao menos de parte da Adutora do Agreste, que deveria ter ficado pronta em 2015, mas ainda se arrasta e depende de recursos do governo federal. Enquanto isso, outras três obras têm o objetivo de amenizar a ausência da Adutora do Agreste, cuja função é distribuir água da Transposição do Rio São Francisco para os municípios. São elas: a Adutora do Moxotó, que está em fase de testes; a Adutora do Alto Capibaribe, que começou a ser construída recentemente e só deve ser concluída no fim de 2019; e a Adutora do Serro Azul, também em obras.

“Mesmo se as barragens secarem, as cidades vão continuar a ser abastecidas com água do São Francisco. As obras vão diminuir totalmente a dependência de carros-pipa”, comenta Marconi de Azevedo.

Setor produtivo está otimista

Um dos reflexos do aumento da água no reservatório de Sobradinho é o fim do Dia do Rio, instituído pela Agência Nacional das Águas (ANA), a partir do próximo sábado (1º). Desde junho deste ano, a cada quinze dias, os usuários de recursos hídricos do Rio São Francisco e afluentes não podiam captar água. As prioridades eram o abastecimento humano e matar a sede de animais. Os produtores do Vale do São Francisco afirmam que a decisão é um sinal positivo para 2019.

Em 25 de novembro, o Reservatório Equivalente da Bacia do Rio São Francisco acumulava 28,29% nos reservatórios de Três Marias (MG), Sobradinho (BA) e Itaparica (BA/PE). Na mesma época do ano passado, acumulava apenas 4,52% nas três represas.

“Devido à melhora das condições da bacia, a ANA não prorrogará o Dia do Rio e, a partir de 1º de dezembro, os usuários de água poderão voltar a captar normalmente a água do Velho Chico e afluentes federais”, comenta o superintendente de Operações e Eventos Críticos da ANA, Joaquim Gondim.

O Vale do São Francisco produz, por ano, 600 mil toneladas de manga e 250 mil toneladas de uva. Com relação ao mercado interno, a estimativa da região é que os negócios da fruticultura movimentem R$ 1 bilhão. Por ano, o País exporta até 170 mil toneladas de manga e 50 mil toneladas de uva, dos quais 84% e 99,9%, respectivamente, saem do Vale do São Francisco.

De acordo com o presidente da Valexport, associação que representa os produtores exportadores, José Gualberto, o Dia do Rio trazia perdas. “Tínhamos um prejuízo de 7,5% a 10% na produção, quando não podíamos irrigar. Então, o fim desse dia vai nos dar uma capacidade de planejamento a longo prazo. É necessário que essa gestão privilegie o consumo humano, o consumo animal e a produção agrícola. O Nordeste não pode produzir se não tiver água. Energia tem outras fontes”, comenta.

De acordo com Gualberto, este ano, haverá um incremento natural na produção e exportação em torno de 3% a 5%. “A seca e a gestão que houve das águas do São Francisco desestimularam muito o crescimento. Faz quatro anos que não há investimento no aumento da produção. Vamos ver se agora em diante retoma-se uma certa confiança. Além disso, a mudança do governo está gerando certo otimismo no setor produtivo. Para o próximo ano, estamos mais otimistas”, complementa.

A ANA afirma que, em situação de escassez, o abastecimento humano e a dessedentação animal são os únicos usos prioritários previstos em lei. Assim, houve uma redução da geração hidrelétrica para preservação dos demais usos, incluindo a irrigação.

“Está chegando mais água em Sobradinho do que saindo. Geralmente, as chuvas em Minas Gerais acontecem em dezembro, mas este ano chegaram mais cedo. É um bom sinal para 2019, mas só em janeiro, quando for definida a gestão da água, vamos ter uma perspectiva melhor. A continuidade das chuvas vai trazer mais tranquilidade”, diz o presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Petrolina, Jailson Lira.

Do JC Online.

Foto: Agência Brasil

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